terça-feira, 29 de junho de 2010

Indaqua | Concurso Letras de Água



Indaqua envolveu milhares de crianças em concurso literário | Jornal de Vila do Conde, 24-06-2010, p.2

Leia o texto vencedor da turma

5ºF da Escola EB 2.3 Dr. Carlos Pinto Ferreira - Junqueira - Vila do Conde, A Gota de Água,


segunda-feira, 21 de junho de 2010

O Sangue de Cristo | Conto

O Verão já caíra de maduro como a seguir verão.
Era época de vindimas em olhares retrospectivos, com toda a tradicionalice que os anos foram apagando, como velas de aniversários consecutivos e onde os parabéns acabaram por se traduzir em paramales impossíveis de recuperar.
Outubro de calor, onde a serenidade se cheirava e os odores da terra inundavam bofes.
Árvores já declamavam estrofes de vermelho envoltas nas partituras de chilreios de pássaros já em migração.
Nessa altura era miúdo, rodeado de escalas gigantescas que criavam o meu universo em números não metricamente mensuráveis, mas que abrangentemente me abraçavam e me faziam sentir pequeno, mesmo puto…
Uma visão de uma nova festa deslizava perante os meus olhos:
- Homens apareciam despertando a manhã com cestos e tesouras, prontos a partir para a guerra da aniquilação das uvas pendentes de esteios com videiras.
Fui acompanhando o resfolegar cansativo do peso nas várias subidas e o assobiar despreocupado da leveza nas descidas.
O lagar ia enchendo nas incontáveis idas e vindas do descarregar dos bagos, que vagamente eram suspensas para beber um copo de vinho que já tinha sido e viria a ser. Cerveja não se comentava ou contava e água só para lavar as mãos dos mais limpos.
Na casa senhorial, afadigavam-se na preparação das refeições, a dona da quinta e as ajudantes improvisadamente iguais, ano, após ano.
A manhã no seu final e o arroz de cabidela, em tacho industrial, borbulhava em mesa colocada no exterior, sem toalha, na sua simplicidade de madeira, onde o caruncho já roía em incontáveis pontos. Guardanapos de branco linho contrastavam com as tábuas encastradamente escuras. Canecas também brancas com populares desenhos azuis de frutos e flores completavam o plinto da refeição.
No final o bagaço sem café, para o rematar da jorna que a tarde faria culminar.
Tudo que as videiras tinham esbarrigado, restava amontoado no lagar de pedra, ao toque badalado e distante das trindades da torre da pequena igreja.
Aqueles que a uva tinham colhido, vestiam agora compridos calções brancos de algodão que arregaçadamente se afundavam nos tintos cachos e abraçadamente os pisavam, não por despeito, mas pela consecução do aforismo final.
Entre canções e risadas, na sala a mesa era posta, desta vez com branca e ricamente bordada toalha.
O bacalhau, cozido com todos e mais alguns, espreitava da avantajada travessa só digna dessas ocasiões.
Enquanto as mulheres da casa permaneciam na cozinha aprontando um leite-creme queimado, um dos homens que se adiantara nas suas abluções finais, sentou-se à mesa. Retirou duas postas de bacalhau e ovo cortado em metades que sofregamente comeu. Não satisfeito na sua gula, continuou a desbravar a travessa fazendo ponte para o seu prato de mais e mais pedaços do agora infiel amigo.
No ruído da moengação, não ouviu os outros chegarem. Apenas as sombras projectadas que toldavam as lâmpadas do candeeiro pregado ao tecto o fizeram levantar os olhos. Outros pares de olhos o fitavam com animosidade estampada nos semblantes cansados.
- Então, não tiras a última posta? – Retumbou uma voz.
Quando o gesto se formou para retirar o último resquício da ceia, um comprido garfo de ferro com afiados dentes, voou empunhado pela voz trespassando a mão que estrebuchando fios de sangue ficou presa à toalha e madeira da mesa.

Só assim descobri que os padres não eram vampiros e que o sangue de Cristo descendia do vinho e não do sangue derramado de uma mão espetada por um garfo, ou um cravo…


Fernando Magalhães

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Fernando Magalhães | O professor


















Fernando Magalhães | O professor | Sala dos Professores
Escola EB 2.3 Dr. Carlos Pinto Ferreira - Junqueira - Vila do Conde

terça-feira, 15 de junho de 2010

terça-feira, 8 de junho de 2010

Projectos de Arquitectura 3









Casa Ferreira - Beiriz - Póvoa de Varzim

Esta moradia nasceu de uma pré-existência, um antigo armazém,que o requerente por questões historicistas e afectivas pretendeu manter. Por esse motivo podemos considerar que a solução arquitectónica partiu de dentro para fora, com todas as questões subjacentes de definições de espaços e trajectos. Existiu uma preocupação na escolha de materiais nobres e sem necessidade de grande manutenção. No exterior utilizamos em profusão o granito, o xisto, o aço inox, placas de Alucobond a imitar madeira, contraplacado marítimo de Afizélia e deck em travessas de madeira de caminho de ferro (TGV Belga). Os interiores primaram pelo vidro lacado, granito Árabe e Indiano, madeira de Afizélia em soalho tradicional e Silestone.

Trabalho realizado em co-autoria com o Arquitecto Francisco Furtado.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Projectos de Arquitectura 2





Casa Xana, Bagunte, Vila do Conde. Construída em 2008, esta moradia encontra-se implantada num terreno de acentuado declive que foi aproveitado para desenvolver a sua divisão espacial interna e articulação entre áreas de estar e de serviço. Foi dado especial destaque à arquitectura de interiores, recorrendo-se para o efeito à utilização da madeira, xisto e mármore fóssil. Trabalho realizado em parceria com o Arquitecto Francisco Furtado

Projectos de Arquitectura














Casa Manuela e Marcelino, Árvore, Vila do Conde. Construída em 2008. Esta moradia obedeceu a um programa onde imperava a versatilidade, simplicidade e economia. De arquitectura marcadamente minimalista, destaca-se pelo enquadramento no terreno e escolha dos materiais. Este projecto foi realizado em parceria com o Arquitecto Francisco Furtado

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Tesouro | Escola EB 2.3 Dr. Carlos Pinto Ferreira



Fernando Magalhães e José Miguel Silva, respectivamente autor e ilustrador de O Tesouro, com os alunos na Biblioteca da Escola EB 2.3 Dr. Carlos Pinto Ferreira, Junqueira, Vila do Conde, em 19 de Março deste ano.


Mais fotos em junkeira.blogspot.com

O Senhor dos Gatos | Conto


Tricotava gestos no meio da noite, escondendo o novelo das intenções a pessoas que aparentemente alheias passavam, ou ao trânsito automóvel que de olhos abertos em luz varriam uma rotunda da cidade.
Cirandava no exterior de uma fábrica em ruínas, após ter estacionado o carro, já com uns dez anos marcados de arranhões e tinta preta baça. Contornou o veículo, abriu uma das portas, retirou um saco plástico e olhando à volta e ensaiando passos incoerentes, baixou-se e espreitou para debaixo do automóvel. Desatarraxou a antena que guardou no interior do mesmo, trancou as portas, colocou o saco sobre o “capot “ e olhou em redor. Por vezes encolhia-se encostado ao carro, de braços cruzados, qual animal acossado, quando vislumbrava algum transeunte mais próximo.
Nos momentos em que o silêncio se abatia na quietude esquecida de movimentações, apartava restos de comida do saco plástico e passava-os para um recipiente de “fast-food” sem retorno, ciciando palavras e mergulhando a mão numa falha entre tijolos que entaipavam uma das entradas do degradado edifício.
Então aparecia um par de olhos luminescentes que saltando pelo orifício procuravam ronronando o alimento e, pouco depois, mais dois pequenos gatos se lhe juntavam no festim nocturno tão aguardado.
Desemaranhando toscas carícias nos pêlos mal tratados de sóis e chuvas de abandono, como anfitrião empenhado acompanhou o apetite voraz e serviu leite num prato de papel.
Reparando na lânguida preguiça que a satisfação da abundância provocara, colheu do automóvel uma caixa de cartão forrada com um pequeno cobertor e colocou-a ao abrigo do motor ainda quente.
Provavelmente desejou uma boa noite em linguagem felídea e lá se foi, avenida abaixo, no seu passo bamboleante, absorvido pela escuridão, com a qual candeeiros de luz empalidecida, teimosamente jogavam às escondidas.
E, todos os dias, obstinada e escrupulosamente, se repetiam os gestos semi-escondidos, cúmplices da noite, repartidos em solidões coniventes e preenchidas.

Soube mais tarde que tinha sido jogador de futebol.
Jogou cegamente a bola da sorte até à exaustão, até à aposentação trabalhada, suada e perseguida em outras sortes e outros locais, pontapeando agora o destino sem bola e sem visão clara de futuro.
No fado obscuro desse tempo tinha casado e adquirido uma pequena habitação com a ajuda de prestações pagas a uma instituição bancária, sempre solícita nestes casos.
Nunca teve filhos, mas o amor dele e da mulher pelos gatos completou o equilíbrio ausente e enquanto o espaço o permitia, qualquer gato teve direito a carinho, alimento e educação. Sim, porque isto de educar gatos é como educar filhos: ensinámos-lhes boas maneiras, hábitos de higiene, conselhos para atravessar as ruas, ou desesperamos quando chegam mais tarde a casa perdidos nos telhados de uma relação qualquer.

Eram quatro horas e vinte minutos da madrugada.
Fazia a ronda no edifício de uma multinacional onde o tinham contratado como vigilante.
O telemóvel vibrou.
Do outro lado disseram-lhe que a mulher estava no hospital e que uma fuga de gás tinha provocado um incêndio em casa…

…Da casa apenas restavam as paredes exteriores calcinadas.
A mulher falecera carbonizada.
Os gatos também.
Solitário, sentiu que ser homem era estar para além dos outros homens, para além da dor, da obsessão da vida, da loucura e da exigência social.
Constatou com a amargura da perda, que os gatos que tivera nada lhe exigiram em troca, apenas o carinho e a veracidade de ser humano.
Hoje gostaria de trocar essa condição de humano e esquecer tudo: falsidades, sociedade, hipocrisia, promessas, materialismo frívolo, egoísmo, guerra e imbecilidade.

No meio da avenida, falando com o arrumador de automóveis para enganar o silêncio da solidão que o persegue, discursa a moral dos sentidos para a imoralidade dos que o apontam sem sentido e sem razão.
E, tecendo carinhos e entretecendo firmes vontades que o fútil lugar comum teima em reprimir, continua a alimentar os vadios gatos de rua, perdido nos gestos que esconde e que inventa, não por querer, mas por entender que serão sempre gestos que a pluralidade dos homens nunca compreenderá e apagará para sempre da memória.

Fernando Magalhães

terça-feira, 11 de maio de 2010

Rua

Dona Umbelina | Conto

Dona Umbelina era orelhas despertas pela manhã…
Mal o sol lambia o betão indefinido de construções a nascente, logo se colava à janela, ou à porta da varanda da sala.
Nada tinha que fazer.
Enviuvadamente assumida e cusca por profissão, deixava escorrer lazeres, de ouvido pregado ao tecto, à rua, ou ao rés-do-chão.
Falas apagadas, ou histéricos gritos que andares transpiravam, eram tema de conversa.
Com amigas de chá das cinco, triangulando trajectórias que toda a rua abarcava, tontas deambulavam como mosca atrás de monturo por toda a cidade acima.
…Tão longe, que o ser ou não ser, era um talvez, já pintado em pesadas cores grafitadas na mais branca e esfíngica parede.
Teceduras de brocados ou teias urdidas por desleixadas aranhas, as palavras abertas ao vento, varriam folhas imaculadamente verdes que previamente avermelhavam de vergonha, acastanhavam de desespero e apodrecidamente eram calcadas pela sociedade ensandecida que no boato acreditava sem acreditar na vida.
No bafiento sopro da palavra desatada à rebelia, sem pudor, destemperada e envenenada como seta, casamentos abalaram, sociedades caíram, amizades soçobraram e relações paternais ruíram.
Era um sismo não mensurável na escala de Richter, mas umbelinamente provocado como marabunta desenfreada que roía sentimentos e valores à passagem, semeando o pânico das sombras lançadas em pleno meio-dia.
A cidade agitava asas de gaivota em mar de tempestade, os habitantes comentavam o que não sabiam, as autoridades sem pistas palpáveis recomendavam calma, os jornais e revistas vendiam o inexplicável e Dona Umbelina ria…
Ria tanto, que as lágrimas se transformavam em riachos insondáveis que alagavam as margens do bom senso e criavam inundações de imbecilidade.
Os animais, como barómetros prevendo tempestade, viravam-lhe a cauda. E quem não consegue falar com animais, também não fala com gente. Porque animal é gente, só que sociabiliza de outra maneira. E um cão que reumaticamente passava, levantando despudoradamente a perna, resmungou caninamente presente um indiferente latido e, com traumático orgulho, pisou em abandono o asfalto que se perdia em reverberantes calores pela estrada sem destino, ou predestinadamente escolhida, quem sabe!
Dona Umbelina, perdida de incompreensão, levou as mãos à cabeça em evacuação de inconformada raiva, mais irada que raiva que cão não tinha. E sumiu na tarde, pintando a cabeça de negro de intenções que iam fervilhando no carvão do coração mirrado e queimado de folhas escritas em obscura caligrafia.
Ao entrar em casa transpirava revolta, daquelas que a alma, se existe, não contém; perdendo-se em penumbras de vingança, apontou dedolarmente a mercearia da esquina.
Comércio local, onde as moscas partilhavam mercadoria que o freguês comprava e o cheiro a bacalhau demolhado, lembrava defunto afogado devolvido à areia dois meses passados. E telefonicamente denunciou no teclado as incúrias à cúria que mais desasamentos aplicava.
Pouco tempo bastou para que a pacata rua se enchesse de sirenes rebocadas por carros policiais clamando por vingança às normas postuladas.
A mercearia virou cartel em tempo activo de droga, por mãos de indivíduos armados de capuzes e escondidos por armas, que pistolavam, ou metralhavam, se incompreendidamente entendidas pelo espanto ou falta de cooperação.
Latas de sardinhas em conserva, bifes do vazio, gomas que os miúdos adoravam e arroz carolino, sem falar no esparguete, foram revirados, esventrados, espalhados e calcados no chão de tijoleira que ainda brilhava de produto anti-séptico. Até a sanita, na sua digna displicência, passou pela humilhação de não servir os intentos para os quais estava destinada, tendo sido arrancada da parede e esmiuçada no seu auto (crismo), nada revelando das traseirices e peças adjacentes com quem partilhava assento todos os dias.
Imoral da história: o bacalhau era o culpado, o infiel amigo de demolhos esquecidos, foi considerado o réu que pagou multa de fechar porta.
E o comércio local, já perdido na procura, perdeu-se na oferta do esquecimento!...
Quem não foi esquecida foi Dona Umbelina.
Em missiva de registo postal ostentatório iniciada em A e acabada em E com pontos à mistura e coleante serviço em serpentino S, alheia a abecedários desnecessários, foi convidada a cuscar em lugar de destaque no topo da rua, da cidade e do poder…
Perante as amigas, em sorvedouros de chá das cinco, gaba-se de nunca ter fumado em casino ou avião!...
Junto à porta da casa, o cão do asfalto, alçava a pata em líquido cumprimento.


Fernando Magalhães