sexta-feira, 15 de junho de 2018

O professor...


Ser professor é ser artista, malabarista,
pintor, escultor, doutor,
musicólogo, psicólogo…
É ser mãe, pai, irmã, avó,
É ser palhaço, estilhaço,
É ser ciência, paciência…
É ser informação,
É ser acção.
É ser bússola, é ser farol.
É ser luz, é ser sol.
Incompreendido?... Muito.
Entendido?...Nunca.
O seu filho passou?...
Claro, é um génio!
Não passou?
O professor não ensinou!

Ser professor…
É um vício, ou vocação?
É outra coisa…
É ter nas mãos o mundo de
AMANHÃ

AMANHÃ
os alunos vão-se…
e ele, o mestre, de mãos vazias,
fica com o coração partido.
Recebe novas turmas,
novos olhinhos ávidos de
Cultura
e ele, o professor,
vai despejando
com toda a ternura,
o saber, a Orientação
nas cabecinhas novas
que amanhã
luzirão no firmamento do País.
Fica a saudade…
a Amizade.
- O pagamento real?
…Só na eternidade.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Professor: Um manual a não esquecer...


Enviaram-me este texto que passo a divulgar, pedindo desculpa ao autor pelo facto de não me lembrar do seu nome.

1. Não queira salvar o Mundo. O Mundo não tem salvação. Os humanos têm tratado tão mal a mãe natureza que ela vai agradecer quando os humanos derem cabo de si próprios.

2. Não entre na escola com a ideia peregrina de que a sua missão é salvar crianças e adolescentes. Há muitas crianças e jovens que não têm salvação. Quando chegam à escola já estão perdidas. Não se sinta culpado pela perdição dos outros. As culpas da perdição têm de ser distribuídas pelos políticos e pelos pais. Os primeiros porque não sabem governar o país; apenas sabem governar-se. Os segundos porque colocam o amor-próprio e os interesses pessoais à frente dos interesses dos filhos. E vai daí, passam a vida a fazer asneiras.

3. Se vir uma criança com fome, compre-lhe uma sanduíche. Mas não tenha a pretensão de querer resolver o problema da pobreza.

4. Não fale nas aulas sobre sexo e política. Concentre-se nas suas matérias e lembre-se de que ensinar bem é a coisa que melhor pode fazer para ajudar as crianças e os jovens a serem bem sucedidos.

5. Não queira ser engraçado nas aulas nem queira passar por humorista. Lembre-se de que está a falar para 25 alunos que têm telemóveis com câmara fotográfica e gravadores de áudio e vídeo.

6. Não queira fazer-se passar por irmão mais velho, amigo, pai ou mãe dos alunos. Seja simplesmente professor: um profissional com elevada competência técnica e científica que, embora mal, é pago para ensinar. Quando se ensina bem, está-se a educar. A educação é uma camada que se sobrepõe à instrução. A sua tarefa principal é instruir. A educação vem por acréscimo. É um bónus.

7. Não fale sobre a vida privada com os alunos. Lembre-se de que você não é pai nem mãe deles. Tão pouco é irmão. Nem sequer é um amigo. Você é um profissional.

8. Não queira entrar na intimidade dos seus alunos. Ouça-os quando eles se dirigem a si para falar sobre os problemas pessoais, mas ouça apenas. Não diga nada. Se for caso disso, encaminhe-os para o psicólogo escolar. Se for assunto que possa ser tratado pela escola, mande-os falar com o director de turma.

9. Guarde a ternura para os seus filhos. Não caia na tentação de consolar as crianças e os jovens com carícias, ainda que inocentes. Seja cuidadoso. Há crianças e jovens que fazem uso da maldade pura.

10. Cuidado com as conversas com os pais. Trinque a língua antes de falar. Diga só o que for realmente necessário. Limite-se à descrição dos factos. Poupe nos adjectivos. Não faça juízos de valor. Nunca tenha a pretensão de pensar que os pais dos alunos são seus amigos. E nunca tome o partido dos pais contra os seus colegas. Lembre-se de que os pais passam, mas os seus colegas vão estar ao seu lado durante pelo menos 40 anos.





quinta-feira, 26 de abril de 2018

Recordação - 25 de Abril 1974


1973 – Faculdade de Ciências do Porto 

"- Camaradas, não podemos permitir que nos calem à força! Que não possamos discutir os problemas do ensino, a guerra colonial, a ditadura que nos oprime! Temos que lutar pelos nossos ideais, não queremos ser carne para canhão! Queremos liberdade de expressão e pensamento! Contra a opressão! …
“- Contra a opressão!... Contra a opressão!...” Coros gritantes de raiva e solidariedade soltavam vozes desamordaçadas que ecoavam nas paredes da Faculdade.
“ – Fujam, a polícia de choque! “ – fez-se ouvir uma voz sublevando os aplausos e os berros cantados que em uníssono já entoavam a Internacional Socialista.
As portas de ferro abriram-se com estrondo e vultos negros de azul entraram em catadupa de fardas, escudos, capacetes e bastões. A confusão abateu-se e debateu-se na débil tentativa de fugir à fustigada sibilante dos alongados cassetetes que rodopiavam como pás de moínhos soprados por vários ventos demoníacos, em voluteares lancinantes, como lancinantes eram os gritos e gemidos dos atingidos.
Viu-se envolto na confusão, como já se tinha tornado hábito nas R.I.A.”s (Reuniões Inter Associações), onde todos os estudantes, desde os liceais, até aos universitários, se tentavam encontrar secretamente, para tomar decisões e ações, que mesmo “naïves”, eram consideradas o grito de alerta para a liberdade do pensamento e da palavra sempre perseguida e manietada pelo poder vigente.
Vários camaradas já tinham sido presos. Amigos, colegas, tanto rapazes, como raparigas e, dependendo da reincidência, agitadores reconhecidos, ou não, tanto dava direito a dormida gratuita nos calabouços com interrogatórios mais ou menos coercivos, ou multa paga pelos pais (dois mil escudos), com severos avisos policiais e posteriores admoestações verbais e até corporais, paternalmente infligidas.
Sabíamos que alguns camaradas passavam vários dias nos cárceres sendo sovados pela polícia e, em casos mais gravosos, enviados e interrogados pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado).
Correu às cegas pelos corredores, perseguido por uma sombra que esgrimia, como espada que cortava o ar, a chibata autoritariamente fabricada com aço e couro, que zunia no ar, assobiando canção de dramática elegia. Ao passar pela cantina, pegou num vaso e, com toda a força, lançou-o sobre o perseguidor que o recebeu bem sobre a cabeça, desequilibrando-o e fazendo-o cair sobre o chão de mármore.
Saltou por uma janela que dava para o “Piolho” (o café mais frequentado pela camada estudantil) e desapareceu correndo, atravessando o jardim da Cordoaria rumo a casa.
Mais tarde veio a saber que o atingido era seu tio e, que se não fosse o pretenso escândalo familiar, teria sido notificado, ou preso em casa, para averiguações.
Durante anos não falou com o tio.

1974 -  Colégio Particular no Porto 

Tinha reprovado a Físico-Químicas e Matemática.
Tinha feito um poema libertário para o jornal do liceu que foi considerado antirregime.
Tinha tentado matricular-se no mesmo liceu, tendo-lhe sido vedada essa hipótese por ser considerado agitador político e reacionário ao poder que vigorava.
Escolheu um colégio próximo, onde podia, com paralelismo pedagógico, estudar as disciplinas em falta e contactar com os amigos de luta que não faltavam nem falhavam em reivindicações académicas.
“Das Kapital” de karl Marx, Rosa Luxemburgo, Lénine e até Che Guevara, eram mais mitos, ídolos e idiossincrasias, do que conceitos ideológicos ou teorias políticas revolucionariamente assimiladas.
Era um anátema de querer sem saber como alcançar. Vivia-se a ideia do ser sem saber como. Do falar, sem conhecer profundamente. Do viver, por desconhecer. Mas eram eles, adolescentes revolucionários, ídolos de si próprios, de mãos dadas com outros pretensos ídolos, que respiravam revolução, sonhavam socialismo e acordavam mudança social, igualdade de classes e arco-íris socioeconómico.
“ – Sabes que algo aconteceu esta madrugada?” – perguntava Casimiro um colega de luta em manhã de aulas.
- Não, não sei de nada!
- Dizem que houve uma revolução e que o Tomaz e o Marcelo foram de vela!
- Não me acredito pá!
- É verdade! Até já passa a Grândola Vila Morena na rádio!
- Onde ouviste isso?
- Disseram-me, temos que saber!
- O quê, vais pedir ao diretor do colégio que ligue o rádio?
- Não pá! Vamos lá para fora! Compramos um transístor!
- Tens dinheiro? Eu tenho algum!
- Mostra!”
Juntaram as moedas que tinham e abandonaram o colégio dirigindo-se a uma loja de eletrodomésticos. Compraram um pequeno rádio transístor e ligando-o, apenas ouviam músicas marciais e pequenas intervenções do MFA (Movimento das Forças Armadas).
Abraçaram-se e saltaram no meio da rua, rindo e chorando ao mesmo tempo. Os apelos eram claros: “- Todos deviam permanecer em absoluta calma, de preferência em casa, até novas informações.
E, qual espanto, ouviram mesmo a Grândola do Zeca Afonso, no pequeno rádio a pilhas, roufenho, cujo som parecia saído de umas cordas vocais que tivessem inspirado hélio.
- Vamos para a Praça? E foram, tomando o primeiro carro elétrico que se dirigia até lá.
A multidão era imensa! Ouviram-se tiros que fizeram gente anónima correr e gritar. A polícia carregava sobre a população tentando encaminhá-la para a rua de Ceuta onde se encontravam as carrinhas celulares prontas a amontoar os amotinados.
Subitamente surgiram camiões e tanques ligeiros do MFA, Berlietes e Panhards. Um megafone, empunhado por um soldado graduado, fez-se ouvir do alto dum veículo militar de canhão apontado: “- Ou se rendem, ou disparamos! Larguem as armas!”
O povo em cólera voltou-se contra a polícia que desesperadamente tentava alcançar as carrinhas onde se tinha transportado.
A caça fez-se caçador. A polícia tudo largava: cassetetes, escudos, capacetes e até crachás, perante a multidão que avançava desenfreadamente em incontrolada fúria. Os vidros das carrinhas policiais foram partidos e agentes agredidos.
E por fim uma paz reinante aconteceu apenas acordada com vivas ao MFA e gritos de fascismo nunca mais.
Como por encanto apareceram cravos vermelhos que foram distribuídos pelos soldados e colocados no cano de metralhadoras.
Hoje, o outrora resplandecente cravo vermelho plantado em tubo de negro aço que cheirava a pólvora, apodreceu na terra carenciada de adubo pelas mãos governantes que se adubam a si próprias!...
Fernando Magalhães